SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE

CNPJ/MF nº 60.517.984/0001-04
Fundação: 25 de janeiro de 1930
Apelidos: O Mais Querido, Clube da Fé, SPFC, Tricolor Paulista.
Esquadrão de Aço (30-35), Tigres da Floresta (30-35), Rolo Compressor (38-39, 43-49), Tricolor do Canindé (44-56), Rei da Brasilidade (50-60), Tricolor do Morumbi (60-), Máquina Tricolor (80/81), Tricolaço (80/81), Menudos do Morumbi (85-89), Máquina Mortífera (92/93), Expressinho Tricolor (94), Time de Guerreiros (2005), Soberano (2008), Jason (08-09), Exército da Salvação (2017), O Mais Popular (2023), Campeão de Tudo (2024).
Mascote: São Paulo, o santo.
Lema: Pro São Paulo FC Fiant Eximia (Em prol do São Paulo FC façam o melhor).
Endereço: Pr. Roberto Gomes Pedrosa, 1. Morumbi; São Paulo - SP. CEP: 05653-070.
Site Oficial: www.saopaulofc.net
E-mail: site@saopaulofc.net
Telefone: (55-0xx11) 3749-8000. Fax: 3742-7272.
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O primeiro gol de falta de Rogério Ceni

Artigo escrito para o site oficial em 15 de fevereiro de 2022

 

Por conta da incrível trajetória como goleiro, Rogério Ceni gravou o próprio nome na eternidade com inúmeros recordes e conquistas, coletivas ou pessoais. E uma delas, certamente a mais peculiar para um atleta desta posição no esporte, é o símbolo da carreira dele: 131 gols marcados. Estes gols tiveram início quando o goleiro executou uma cobrança de falta que mandou a bola ao fundo das redes de Adnan.

Naquela tarde de sábado, 15 de fevereiro de 1997, quando o relógio marcava 16h44 em Araras – interior de São Paulo – o volante Ricardo Lima, do União São João, cometeu falta em cima de Adriano, perto da grande área do time local e, por essa infração, o adversário recebeu o cartão amarelo. Para a cobrança, apresentou-se Rogério Ceni, que se deslocou da própria meta para a do rival correndo. Ele, então recém promovido ao posto de principal goleiro são-paulino, não se intimidou com o inusitado do fato e nem os olhares atravessados.

O jogo, realizado no Estádio Hermínio Ometto e válido pela segunda rodada do Campeonato Paulista, estava 0 a 0 e perto de ter a primeira etapa encerrada. Com 45 minutos de bola em jogo, Rogério Ceni tinha, aos pés, a chance de pôr o Tricolor à frente do placar. Mas não era somente isso que estava em questão àquela altura.

Rogério Ceni foi escolhido por Muricy Ramalho como o cobrador de faltas oficial do time logo no primeiro dia de titular absoluto no gol do Tricolor – um jogo amistoso contra o Colo-Colo, no Chile, em 3 de dezembro de 1996 (ocasião em que o treinador espantou a todos com essa postura, mas que, curiosamente, não teve nenhuma falta perto da área para que o goleiro pudesse cobrar).

Apesar de treinar exaustivamente essa jogada desde 1995 e tendo executado até então mais de 15 mil tentativas no CT da Barra Funda, Rogério talvez não permanecesse nessa posição caso errasse aquela cobrança. Adriano, o camisa 10 do Tricolor que sofrera justamente a falta onde esta história começou, era forte candidato a assumir o posto.

Isso, pois, o goleiro já havia batido quatro faltas em jogos oficiais naquele início de temporada de 1997, não sendo bem-sucedido em nenhuma delas. A primeira vez que o camisa 1 do São Paulo tentou marcar um gol de falta foi no dia 23 de janeiro de 1997, no Morumbi, contra o Fluminense.

O goleiro do time carioca, Léo, defendeu o chute, meio sem saber como – E como aqui agora se vê, também entrou para a história por ser o primeiro jogador a impedir um gol do M1TO Rogério Ceni.

A segunda ocasião se deu no mesmo Torneio Rio-São Paulo e contra outra equipe carioca, o Flamengo. No dia 28 de janeiro, no Maracanã, Rogério Ceni preparou-se para a cobrança, arrumou a pelota e… Adriano bateu rapidamente, enganando os marcadores rivais. O árbitro mandou o lance voltar, pois ele ainda não havia autorizado. Com o apito do juiz, Ceni cobrou a falta com maestria!

Mas foi um pecado aquela bola, que bateu no travessão, não ter entrado!

Novamente contra o Flamengo, agora no jogo de volta da semifinal do Rio-São Paulo (1º de fevereiro, no Cícero Pompeu de Toledo), Rogério teve a terceira chance de marcar um gol. Detalhe: o árbitro marcou falta, mas o lance na realidade foi de recuo para o goleiro rubro-negro e deveria ter sido anotada a execução em dois lances, dentro da área. Um erro absurdo. E pelo regulamento da competição, essa cobrança não teve barreira adversária pelo fato do Flamengo ter ultrapassado o limite de 15 infrações. 

Rogério tentou mais uma vez, mas a bola, teimosa, saiu pela linha de fundo, à esquerda de Zé Carlos. Foi a terceira cobrança de falta sem barreira para o Tricolor na partida. Antes, Adriano havia marcado um gol e perdido uma chance – o que acarretou outro marco importante: foi a primeira vez que torcedores no Morumbi inteiro gritaram o nome “Rogério” para que o jogador se destacasse para a jogada.

A quarta oportunidade poucos torcedores tiveram chance de ver ao vivo (12.249 pessoas), visto que a partida contra a Portuguesa Santista, no dia 9 de fevereiro, no Ulrico Mursa e pelo Campeonato Paulista, não foi televisionada: a imagem é de produção interna do clube.

A cobrança, por sinal, não foi das melhores. No áudio original é possível, inclusive, ouvir o “gol, gol, gol” vindo da arquibancada antes da batida e também os primeiros apupos e “elogios” depois da bola para fora. Rogério Ceni já tentara quatro vezes, sem sucesso, enquanto Adriano, “o concorrente”, havia marcado dois gols de falta nesse período (contra Fluminense e Flamengo). Muricy bancava o sonho de Rogério Ceni – afinal, era ele quem mais se dedicava ao assunto – mas a paciência da torcida com o que muitos chamavam de “brincadeira” acabaria?

Era chegado então momento. Era preciso mudar o rumo dos acontecimentos e traçar o desenrolar da história. A quinta tentativa definiu o futuro de Rogério Ceni, do Tricolor e dos tricolores por todo o mundo.

O goleiro ajustou o posicionamento dos companheiros na barreira e partiu para a cobrança…

O grito de gol, que estava entalado na garganta, veio à tona! 

A comemoração que se seguiu foi uma mistura de êxtase e incredulidade. Sim! Um goleiro, um goleiro novato, havia acabado de marcar um gol com a camisa são-paulina! E que golaço! O arqueiro oponente Adnan ainda chegou a tocar na bola, mas não teve como impedir o curso do destino. 

O que é para ser, será. E como se viu, foi por outras 130 vezes!

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quando o Pacaembu viu o Santos de Pelé fugir do São Paulo

Texto originalmente publicado em 11 de outubro 2017 no site saopaulofc.net.


Todo são-paulino sabe que os anos 60 foram os mais difíceis em termos de conquistas na história do Tricolor, principalmente pelo esforço hercúleo de se construir e finalizar o Estádio do Morumbi - o maior estádio particular do mundo, à época. Difícil também porque nesse período o Santos, de Pelé e cia., atrapalhava um pouco...

Ainda assim, o Tricolor tem um jogo inesquecível frente ao time que dominou o cenário futebolístico daquela década e que todo torcedor - principalmente os que estiveram no Pacaembu no dia 15 de agosto de 1963 - gosta de lembrar (e também tirar um sarro).

Naquele quinta-feira, a tarde, a expectativa do público era o de um grande clássico. Cinco meses antes, o São Paulo sofrera nas mãos dos rivais a maior goleada já imposta por eles (2 a 6). Agora, os tricolores queriam a desforra. A imprensa, por sua vez, destacava o duelo entre o santista Pelé e o ex-santista e então tricolor Pagão, apregoando que seria um confronto equilibrado. 

O Esporte

Mas o que se viu em campo foi uma supremacia são-paulina: o Tricolor goleou o Santos. Não foi nem a maior goleada já aplicada sobre o rival em todos os tempos (9 a 1 em 1944 é hors concours), ainda assim, deu pro gasto. O resultado provocou uma reação nunca vista contra esse adversário e que jamais voltou a ocorrer: o Santos abandonou o jogo, aliás, não somente: fez cai-cai e fugiu de campo. É o expressamente dito nos jornais da época.

Sem colocar a carroça na frente dos bois, vamos do princípio. 60.115 pessoas foram ao Pacaembu ver o SanSão válido pelo Paulistão de 1963. A casa cheia motivou os tricolores a partir para o ataque e assim, logo aos cinco minutos, Faustino recebeu um passe de Martinez pela direita, cortou para o meio, se livrou de Aparecido e driblou Mauro e Dalmo na entrada da área. Cara a cara com o goleiro, chutou rasteiro sem chance alguma para Gilmar: 1 a 0 para o São Paulo! Que golaço!

A Gazeta Esportiva

Imediatamente após o gol, o Tricolor teve cinco chances para ampliar o placar, mas desperdiçou as oportunidades (parou nas mãos do arqueiro). Dias, naquela altura, era quase como um sexto atacante são-paulino, tabelando com Faustino e Pagão. Apesar desse volume de jogo, aos 21 minutos, o Santos empatou com um gol de peixinho de Pelé. 

O tento rival por pouco tempo desestabilizou o esquema de jogo do Mais Querido e os adversários passaram a incomodar mais no ataque. Porém, o sistema defensivo do Tricolor corrigiu a falha que proporcionou o gol de empate santista (deslocando Jurandir e até Sabino para o lado esquerdo, impedindo novas bolas na área; no direito, Deleu deu conta de Pepe e Pelé não achava espaço).

O Esporte

Assim, em pouco tempo o São Paulo já mandava na partida novamente. Não causou estranheza que, aos 37 minutos, tenha balançado as redes: Pagão, fazendo jus à torcida, roubou a bola do ex são-paulino Mauro na altura do meio do campo e lançou para Benê, que rapidamente tocou de volta para Pagão. Enquanto o atacante ajeitava a pelota, o meia disparou ao ataque, onde recebeu mais uma vez a bola, agora já de frente a Gilmar. Foi só tocar para o fundo do gol: 2 a 1 para o São Paulo! Que tabela!

A maneira como ocorreu o segundo gol do Tricolor deve ter sido um baque daqueles para os jogadores do time praiano, pois, apenas três minutos depois, o São Paulo chegou facilmente ao terceiro gol...

O Esporte

Sabino fintou Aparecido duas vezes (este falhou em cometer a falta nas duas) e passou para Martinez, à frente. O paraguaio do time do Morumbi, como bem ressalta do jornal O Estado de S. Paulo, não estava impedido, pois o zagueiro Mauro estava bem junto ao goleiro Gilmar, dando-lhe condições. Fazendo pivô, Martinez devolveu a bola para Sabino, que invadiu até a pequena área, deixando à poeira a dupla de zaga e o guardião litorâneo, que tentou cometer pênalti e nem isso conseguiu: 3 a 1 São Paulo! Que velocidade!

Os oponentes, após esse tento, reclamaram muito da validação pela arbitragem. O juiz, Armando Marques, então expulsou Coutinho, por tê-lo dito "Todo o jogo você #$!%@#$" (censura minha, expressa em A Gazeta Esportiva). A lenda, porém, diz que o atleta teria atacado a masculinidade do apitador: "Satisfeito, florzinha?". O fato é que a atitude do árbitro causou a explosão e a revolta de Pelé, em seguida: "Ele não está expulso, seu ladrão!". O camisa 10 santista foi o próximo a ver o olho da rua.

A Gazeta Esportiva

Se 11 contra 11, a situação estava feia para o time alvinegro, com dois a menos pintava uma chance do São Paulo relembrar 1944. O 3 a 1, que marcava o fim do primeiro tempo, apesar de bom, não refletia a tremenda superioridade do conjunto tricolor na partida: tinha tudo para ser um vareio daqueles.

Antecipando as possibilidades futuras, muitos no Pacaembu imaginavam que o Santos sequer voltaria para a etapa final. Posteriormente, em A Gazeta Esportiva, o técnico são-paulino Brandão afirmou que o médico do adversário, o Dr. Salerno, havia dito a ele que o time praiano melaria o jogo.

A Gazeta Esportiva

Mas sim, o Santos subiu ao gramado do Pacaembu para a segunda etapa. Porém, com oito jogadores - um a menos que o esperado. Aparecido (misteriosamente) contundiu-se no vestiário - disseram. Vale lembrar que naquela época em jogos de campeonato não eram permitidas substituições.

Foi só bola rolar que começou o cai-cai e revelou-se a trama. Aos três minutos, em uma jogada banal, de encontrão de Bellini com Pepe, este se atira ao chão, praticamente ferido de morte... Agora o Santos tinha sete em campo - o limite para o jogo seguir.

A Gazeta Esportiva

E seguiu, com o Tricolor no ataque, mesmo meio "sem jeito" com tudo o que acontecia. Enfim, era obrigação fazer mais gols, e o fez: Aos cinco minutos, Dias dominou pela direita, viu Pagão avançando pelo meio e lançou primorosamente para o atacante. Ainda na corrida, bateu prontamente para o gol e anotou, sem chance para o goleiro: 4 a 1 São Paulo! Que finalização!

Pena que não deu para mais nada. Na saída de bola, Dorval alardeia contusão após chutar a bola... O cai-cai foi indecente de descarado. Com a atitude dos santistas, com somente seis atletas no relvado, não restou ao árbitro nada mais do que encerrar a partida aos oito minutos do segundo tempo. Só foram disputados 53 dos 90 minutos regulamentares.

A Gazeta Esportiva

O São Paulo não pôde alcançar o recorde de 1944, mas, de todo jeito, a partida entrou para a história como "aquela vez que o time do melhor jogador do mundo de todos os tempos fugiu de campo com medo de sofrer uma goleada implacável do Tricolor".

Depois desse jogo, o time santista, que era campeão mundial, etc. e tal,  desandou de vez e terminou o Campeonato Paulista na terceira colocação, atrás do próprio São Paulo, vice-campeão. Coube ao Mais Querido, ainda, uma conquista que se iniciou imediatamente após essa peleja contra o Santos: A Pequena Copa do Mundo, realizada na Venezuela, onde o Tricolor desbancou o Porto e o Real Madrid, com moral. 

O Esporte


GOL A GOL

A Gazeta Esportiva e O Estado de S. Paulo

FICHA DO JOGO

SÃO PAULO Futebol Clube 4 x 1 Santos Futebol Clube
15/08/1963. Campeonato Paulista
São Paulo (SP), Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho - Pacaembu,

SPFC: Suly; Deleu, Bellini, e Ilzo; Dias e Jurandir; Faustino, Martinez, Pagão, Benê e Sabino. Técnico: Osvaldo Brandão.

SFC: Gilmar; Aparecido, Mauro e Geraldino; Zito e Dalmo; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe. Técnico: Lula.

Gols: Faustino, 5/1, Pelé, 21/1, Benê, 37/1, Sabino, 40/1 e Pagão, 5/2
Árbitro: Armando Marques
Expulsões: Pelé e Coutinho
Público: 60.115 pagantes
Renda: CR$ 19.950.000,00

Folha de S. Paulo


segunda-feira, 18 de junho de 2018

23 gols do Tricolor em um único dia

Texto originalmente publicado no dia 8 de outubro de 2017 no site saopaulofc.net.


Foi no estádio do Pacaembu que, há 73 anos, o Tricolor conseguiu a aplicar a maior goleada da história do clube em um clássico. Naquela tarde de 18 de junho de 1944, o São Paulo foi implacável contra o time do Santos, goleando o rival por incríveis 9 a 1!

O público presente ao Municipal para esse Sansão, que valeu pelo Campeonato Paulista daquela temporada, saiu satisfeito não somente por ver os gols da partida principal, mas também por presenciar outra impiedosa goleada são-paulina para cima do time do litoral: 14 a 0 na rodada preliminar, dos aspirantes! Ao todo, o São Paulo marcou 23 gols em cima dos alvinegros praianos em um único dia!


O time são-paulino, antes desse massacre, queria fazer valer a condição de atual campeão do certame e recuperar o bom desempenho no campeonato, onde já havia goleada o SPR por 8 a 2, o Jabaquara por 6 a 2 e a Portuguesa Santista por 7 a 4 – os tricolores vinham de uma vitória mirrada contra o Juventus (1 a 0) de um empate em 3 a 3 com o Palmeiras (quando o Tricolor chegou a vencer por 3 a 1).


Os confrontos

Tudo começou muito bem. No tradicional confronto preliminar, envolvendo os aspirantes das duas equipes, o Expressinho Tricolor passou por cima do oponente com estrondosos 14 gols, anotados por Yeso (6), Teixeirinha (2), Américo (2), Ministro (2), Leopoldo (2). Ou seja, toda a linha de frente do time anotou no mínimo dois tentos no confronto.

Vale ressaltar que essa equipe aspirante do São Paulo foi pentacampeã consecutiva no Estado de São Paulo entre 1943 e 1947.

O profissional, contudo - e talvez pela goleada inicial ter mexido com o brio santista - começou o jogo perdendo. Aos 13 minutos, Soler bateu uma falta com precisão no gol de King. Mas o Tricolor acordou e, aos 20 minutos, com Pardal, empatou a partida após passe de Tim. O jogo seguiu então parelho, até o ataque rival perder um gol incrível, com Ruy, cara a cara com o goleiro. A partir daí só deu São Paulo!


Aos 32 minutos, Alberto pôs a mão na bola: pênalti marcado. Pardal foi lá a bateu certeiro, embaixo de Joãozinho, o defensor da meta santista, anotando o segundo gol dele na partida. Pouco tempo depois, outro passe açucarado de Tim e gol de Remo, aos 37 minutos. E assim encerrou-se a primeira etapa da peleja.

O jogo recomeçou com Tim endiabrado: Aos 4 minutos, ele tabelou com Sastre e disparou em corrida, isolando-se dos adversários e chutando com precisão: 4 a 1 para o São Paulo! Começou a cair então uma chuvinha fina, daquelas chatas, que só deixam gramado e bola escorregadios. Aproveitando-se do fato, Sastre, aos 11 minutos, cruzou a pelota de couro para Luizinho, que, sem receio algum, testou com categoria para o fundo do gol: 5 a 1!

Mas os são-paulinos queriam mais e continuavam pressionando. Acuado, Jaú chutou em falso e perdeu a bola para Tim, que comodamente ampliou o placar, aos 16 minutos. Não perca a conta, já são seis! A categoria e técnica dos tricolores era tanta, que espantava os cronistas da época. O jornal A Gazeta Esportiva, no dia seguinte, registrou: "É tão certa e completa a supremacia tricolor que seu ataque se limita a zombar do adversário com a bola nos pés, fazendo a delícia da torcida. São lances e mais lances embriagadores e todos eficazes que nascem no campo santista".

O Tricolor começou a perder gols a rodo! Remo atingiu uma bola na trave. Tim resolveu driblar, de última hora, o goleiro, e deixou escapar um tento. Já sofrendo em demasia, o santista Ari Silva perdeu o controle e atingiu violentamente Luizinho: o juiz o expulsa de campo. Com um a mais no gramado, não tardou e o São Paulo elevou a contagem. O sétimo gol veio de cobrança de falta de Sastre para Luizinho, que, de cabeça e antecipando-se ao goleiro, novamente balançou as redes, aos 27 do segundo tempo.


A chuva apertou e os refletores foram acessos, mas os tricolores queriam mais. 33 minutos: Pardal avançou até a linha de fundo e cruzou curto para Sastre, que surpreendeu Joãozinho, chegando antes - era o oitavo gol! E, quando quase não havia tempo para mais nada, aos 44 minutos, passe de Sastre para Remo e o placar foi finalizado em 9 a 1! Talvez a torcida são-paulina tenha deixado o Municipal um tanto quanto desgostosa por não ter sido alcançada a dezena, mas nove estava de bom tamanho.


Destino Cruel

O goleiro do Santos nessa goleada, Joãozinho, ficou marcado pelo resultado e deixou a equipe praiana ao final da temporada. Permanecendo em Santos, passou a jogar pelo Jabaquara em 1945 e lá, no dia 8 de julho, sofreu outra avalanche de gols do São Paulo, também no Pacaembu, na maior goleada da história do Tricolor até hoje (junto a outra ocorrida em 1933): 12 a 1.

Vida dura... Estima-se que Joãozinho, em 11 jogos contra o São Paulo (defendendo Comercial da Capital, SPR, Santos e Jabaquara), tenha sofrido nada menos que 52 gols, média de quase 5 a cada jogo.


Ficha do Jogo

18.06.1944 Campeonato Paulista
São Paulo (SP). Estádio Municipal de São Paulo - Pacaembu
SÃO PAULO Futebol Clube 9 x 1 SANTOS Futebol Clube

SPFC: King; Piolim e Florindo; Zezé Procópio, Ruy e Noronha; Luizinho, Antonio Sastre, Tim, Remo e Pardal
Capitão: Luizinho
Técnico: Joreca

Gols: Pardal, 20/1; Pardal (pênalti), 32/1; Remo, 37/1; Tim, 4/2; Luizinho, 11/2; Tim, 16/2; Luizinho, 26/2; Sastre, 33/2; Remo, 44/2

SFC: Joãozinho; Jaú e Gradim; Ari Silva, Soler e Alberto; Cláudio, Fierro, Teleco, Eunápio e Ruy.
Técnico: Ricardo Diez

Gols: Soler (falta), 13/1

Árbitro: Rodolfo Wenzel
Renda: Cr$ 75.367,00

Preliminar

SÃO PAULO Futebol Clube 14 x 0 SANTOS Futebol Clube
Gols: Ieso (6), Teixeirinha (2), Américo (2), Ministro (2), Leopoldo (2)


Fotos: A Gazeta Esportiva

sábado, 13 de janeiro de 2018

O Rolo Compressor e o Rei da Década de 40

Texto originalmente publicado no dia 9 de outubro de 2017 no site saopaulofc.net.


Os fatos demonstram que a torcida são-paulina, nos anos 40, frequentava o Pacaembu para ver o Tricolor não se perguntando se o time conseguiria a vitória, mas sim de quanto venceria, ou, indo além, apostando qual seria o placar da goleada. Esse período ficou conhecido como a "Era do Rolo Compressor", quando o clube que conquistou cinco títulos estaduais (a competição mais importante do período) em sete anos: 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949: o Rei da Década!

Como diz o ditado, depois de aberta a porteira, onde passa um boi, passa uma boiada. Com o título de 1943 e a moeda que caiu de pé, iniciou-se o reinado do São Paulo no Estado naquela década. Não fosse pelo ano perdido de 1947, seriam seis títulos e um penta consecutivo. O esquadrão comandado por Leônidas era praticamente insuperável. Mas a história do termo "rolo compressor", contudo, nasceu antes mesmo da chegada do Diamante Negro ao Tricolor.

A ORIGEM

Muitos pesquisadores defendem que o primeiro time apelidado como rolo compressor no Brasil foi o Internacional, no início dos anos 40. O time porto-alegrense chegou a ser hexacampeão local naquele período. Porém, a alcunha era aplicada aos são-paulinos já alguns anos antes da primeira conquista colorada daquela fase, em 1940.


É o que se vê na revista Arakan: Órgão do Grêmio Sampaulino, de setembro de 1940 (antes mesmo de finalizado o gauchão vencido pelo Internacional - encerrado em novembro), onde o próprio Vicente Feola relata como o time por ele comandado, que pouco antes havia incorporado o Clube Atlético Estudantes Paulista, arrancou para o topo do Campeonato Paulista de 1938, aplicou a maior goleada até hoje já executada sobre o Palestra/Palmeiras e que somente não se sagrou campeão pelo desvio de conduta da arbitragem na partida decisiva do certame, contra o Corinthians, na qual se validou um gol de mão cometido pelo rival.

Ou seja, de toda maneira, o São Paulo era conhecido como "Rolo Compressor" desde 1938/1939 (o campeonato daquela temporada acabou no ano seguinte). Com a volta dos títulos e, principalmente, dos placares dilatados à favor do Tricolor, o apelido Rolo Compressor ganhou peso (e concorrência de outras equipes no uso da nomenclatura) nos anos seguintes.


A MAIOR GOLEADA DO PACAEMBU
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Nos dez primeiros anos do Tricolor no Estádio Municipal foram, nada menos, que 172 vitórias e 64 goleadas aplicadas nos adversários (em um universo de 281 partidas - 61% de jogos ganhos e praticamente uma goleada a cada cinco jogos, ou ainda: mais de um terço das vitórias foram com resultados expressivos)

Dentre as mais famosas goleadas, um estrondoso 9 a 1 em cima do Santos, em 1944, a maior goleada do clássico até hoje. Curiosamente, na preliminar daquele jogo, os aspirantes massacraram o time da Vila por espantosos 14 a 1. 23 gols tricolores em um só dia! Algo não muito diferente aconteceu no ano seguinte, mais exatamente no dia 8 de julho de 1945, pelo Paulistão: Outra vitória marcante, mas agora por 12 a 1 no Jabaquara!


O São Paulo, que naquela altura já liderava a competição da qual viria a sagrar-se campeão, não tomou conhecimento do adversário e poderia ainda ter terminado o jogo com contagem mais elevada no placar. O destaque ficou para o capitão Leônidas, que marcou quatro belos gols, inclusive um de "letra" e relembrou as memoráveis atuações do centroavante pela seleção brasileira.


O jogo foi o famoso "vira seis, acaba doze", pois ao fim da primeira etapa o São Paulo já goleava por meia dúzia a zero. Os gols foram anotados por Remo, aos 17, Leônidas, aos 18, Leônidas, aos 31, Teixeirinha, aos 38, Remo, aos 39 e Leônidas, aos 42 minutos do primeiro tempo, seguindo por Barrios, aos 8, Leônidas, de calcanhar, aos 11, Teixeirinha, aos 15, Remo, aos 17, Teixeirinha, aos 40 minutos e por fim (aleluia), já perto do final do segundo tempo, Remo marcou o 12º tento do Tricolor (o Jabaquara marcou o tal gol de honra, de pênalti, quando o placar já se encontrava em 10 a 0).

Foi a maior goleada da história do Tricolor após a reorganização do clube em 1935, como também o maior placar já visto no Pacaembu e no Campeonato Paulista profissional. Mas até ai, tudo bem. O peculiar se encontra no fato de que na preliminar o São Paulo venceu por 8 a 1. Desta vez, então, foram 20 gols tricolores em um único dia (pequena queda de rendimento), 22 ao todo.


Com o time voando, não foi de se espantar que o Tricolor conquistasse o título do Estadual de 1945 com duas rodadas de antecipação e apenas uma derrota (vingada com requintes de crueldade um ano depois). O troféu veio contra o modesto Ypiranga. Porém, na temporada seguinte, a façanha foi realmente épica...


A TAÇA DOS INVICTOS

O ano de 1946 foi um capítulo marcante e especial na história do Tricolor. A temporada começou auspiciosamente bem: goleada para cima do Corinthians – 5 a 1 (gols de Rubén Barrios, duas vezes, Remo, Antoninho e Américo), logo no dia 1º de janeiro.

E terminou magnificamente, com a conquista do título paulista – o primeiro da história são-paulina realizado de forma invicta (feito que só veio a se repetir em 2012, com a Copa Sul-Americana, entre as competições de longa duração).


Porém, entre o começo e o fim, o Tricolor logrou outras grandes façanhas. Na estreia do Campeonato Paulista, 4 a 0 sobre o pequeno Jabaquara. Antes da segunda rodada, deu tempo de golear o Flamengo, em amistoso no Pacaembu, por 7 a 1: uma partida sensacional de Teixeirinha, que marcou quatro gols (Leônidas deixou dois e Yeso completou o placar).

No estadual, o Tricolor então embalou seis sucessos seguidos, culminando em nova vitória sobre o Corinthians, agora por 2 a 1, em junho, antes de um ligeiro tropeço: o empate em 1 a 1 com a Portuguesa, na sétima rodada.  Nos clássicos posteriores: 3 a 2 no Santos, na Vila Belmiro, e 1 a 1 com o Palmeiras. Seguiu-se, depois, outra série de seis vitórias consecutivas e mais uma partida contra o time do Parque São Jorge.


No dia 29 de setembro de 1946, o São Paulo bateu mais uma vez no Corinthians (2 a 1 novamente) e conquistou um prêmio há muito cobiçado: a Taça dos Invictos de A Gazeta Esportiva. O troféu foi instituído em 1939 pelo jornal paulistano e era concedido ao clube que quebrasse o recorde de jogos consecutivos sem perder no Campeonato Paulista (que naquela ocasião era a marca de 22 jogos, número pertencente ao Palestra Itália de 1934).

O São Paulo, sobrepujando o Corinthians, completou 23 jogos invictos, contando com os últimos seis resultados do certame de 1945 - a sequência começou após a única derrota do time naquela edição, frente ao mesmo oponente. A revanche veio com um gosto todo especial. Os festejos pela condecoração foram enormes e paralisaram a capital paulista.


Os jogos invictos

1º. 19.08.1945. Pacaembu: 4x0 Santos
2º. 26.08.1945. Pacaembu: 2x1 Portuguesa
3º. 09.09.1945. Pacaembu: 2x1 Comercial-SP
4º. 16.09.1945. Pacaembu: 3x2 Ypiranga
5º. 23.09.1945. Pacaembu: 1x1 Palmeiras
6º. 30.09.1945. Marapá. 5x1 Portuguesa Santista
7º. 14.04.1946. Pacaembu: 4x0 Jabaquara
8º. 27.04.1946. Pacaembu: 5x2 Portuguesa Santista
9º. 05.05.1946. Pacaembu: 3x1 São Paulo Railway
10º. 19.05.1946. Pacaembu: 4x3 Ypiranga
11º. 01.06.1946. Pacaembu: 7x3 Juventus
12º. 09.06.1946. Pacaembu: 2x1 Corinthians
13º. 23.06.1946. Pacaembu: 1x1 Portuguesa
14º. 07.07.1946. Pacaembu: 6x2 Comercial-SP
15º. 14.07.1946. Vila Belmiro: 3x2 Santos
16º. 21.07.1946. Pacaembu: 1x1 Palmeiras
17º. 28.07.1946. Marapé: 2x0 Portuguesa Santista
18º. 11.08.1946. Pacaembu: 4x2 Comercial-SP
19º. 18.08.1946. Pacaembu: 1x0 Ypiranga
20º. 31.08.1946. Pacaembu: 2x0 Santos
21º. 07.09.1946. Marapé: 4x0 Jabaquara
22º. 15.09.1946. Pacaembu: 2x0 São Paulo Railway
23º. 29.09.1946. Pacaembu: 2x1 Corinthians (conquista)
24º. 13.10.1946. Pacaembu: 1x1 Portuguesa (ampliação)
25º. 26.10.1946. Pacaembu: 7x0 Juventus
26º. 10.11.1946. Pacaembu: 1x0 Palmeiras
27º. 25.05.1947. Pacaembu: 3x1 Comercial-SP
28º. 31.05.1947. Pacaembu: 1x1 Nacional
29º. 15.06.1947. Pacaembu: 3x3 Portuguesa
30º. 22.06.1947. Pacaembu: 7x2 Juventus (número final)



O GOL MILAGROSO

O São Paulo chegou às duas rodadas finais do Paulistão de 1946 com somente três pontos perdidos, dentre 36 possíveis. O segundo colocado na tabela era o próprio Corinthians, freguês na temporada, que possuía quatro pontos perdidos – as duas únicas derrotas deles foram justamente para o Rolo Compressor.

Nessa penúltima rodada, o Tricolor enfrentou o Juventus e goleou por 7 a 0, com direito a espetáculo de Luizinho, que fez quatro gols e um mais bonito que o outro (de pé direito, de cabeça, de falta e de chaleira). Já o Corinthians sofreu, mas venceu o Ypiranga por 3 a 2. A decisão seria mesmo na última rodada e seria a vez do time do Parque São Jorge enfrentar o combalido Juventus. Por sua vez, o São Paulo bateria de frente com o Palmeiras, rival da conquista de três anos antes. O jogo dos são-paulinos, todavia, seria uma semana depois da partida corintiana!

Apesar do espetáculo que o então Tricolor do Canindé deu em todo o campeonato, muitos analistas viam o rival como favorito ao título, visto o tradicional nível de dificuldade do Choque-Rei e ao fato do Corinthians ter goleado o Juventus por 5 a 1, obrigando os tricolores a vencerem o clássico (um empate provocaria decisão em jogo extra entre os dois primeiros colocados).

A Gazeta Esportiva, 9 de novembro de 1946

Entre 40 e 45 mil pessoas no Pacaembu para a decisão do Paulista de 1946. Bola rolando, jogo tenso e amarrado na etapa inicial, com poucas chances para ambos os lados. O primeiro tempo terminou como começou, 0 a 0. O cenário mudou radicalmente na fase complementar, em que o São Paulo dominou a peleja, fazendo forte pressão.

Aos 12 minutos do segundo tempo, o tricolor Luizinho atingiu o goleiro palmeirense em uma dividida. Começou a confusão, com socos e pontapés aqui e acolá. Quando a coisa se acalmou, o árbitro expulsou dois de cada lado: Luizinho e Remo, pelo São Paulo, Og e Villadoniga, pelo Palmeiras. Mas sobrou também para o argentino e são-paulino Renganeschi, que no rebuliço levou uma pancada e, contundido, foi deslocado para a ponta esquerda para fazer número (não eram permitidas substituições, na época).

Praticamente com um a menos, o fim do jogo foi de muita superação e vontade por parte dos tricolores. Aos 38 minutos, Bauer avançou pela ponta direita e cruzou. A bola subiu estranhamente, enganou o goleiro adversário e bateu no travessão. Então, de onde menos se esperava, veio o sutil toque que rolou a bola mansamente para o fundo do gol. Renganeschi! Manquitolando no ataque, o zagueiro definiu o jogo e o título!




A temporada do foi perfeita. Até hoje, nenhuma outra campanha superou essa em aproveitamento. 84,21% dos pontos disputados (à época, 2 pontos por vitória): 30 vitórias, quatro empates, quatro derrotas. No Campeonato Paulista, 92,5% de aproveitamento e nenhuma derrota. Título invicto!


O FIM DE UMA ERA

Depois perder a chance de obter o tricampeonato estadual em 1947, o São Paulo trocou o comando técnico do time, com Vicente Feola no lugar do grande campeão Joreca (que veio a falecer pouco tempo depois, em dezembro de 1949). Feola, velho conhecido dos são-paulinos - assumiu a primeira vez o cargo de técnico em 1937 - manteve o Rolo Compressor na linha e já na primeira temporada saiu-se vitorioso: Campeão Paulista de 1948.


Foi nessa temporada que Leônidas eternizou a bicicleta em imagem. O terceiro gol do Tricolor na vitória por 8 a 0 sobre o Juventus, no dia 13 de novembro, em que o camisa número nove (o primeiro são-paulino a usar esse número em campo - pois as camisas passaram a ser identificadas assim justamente ao final desse ano) executou essa jogada em cima do goleiro Muñiz, foi captada pelas lentes fotográficas e registrada nos exemplares de A Gazeta Esportiva para todo o sempre.

No ano seguinte, 1949, o Tricolor voltou a vencer o Campeonato Paulista, sagrando-se bicampeão. Foi o último título da era Rolo Compressor. 

Ao derrotar o Santos (quando precisava somente do empate para já comemorar com uma rodada de antecipação), por 3 a 1, com gols de Teixeirinha e Friaça (2), no dia 20 de novembro, os são-paulinos celebraram o último título daquele período e foram coroados campeões da década.


Desta maneira, o clube tomou posse definitiva e levou para o Canindé – então sede do São Paulo – a Taça Federação Paulista de Futebol (troféu instituído em 1942, que era de posse transitória até que um clube o conquistasse três vezes consecutivas ou cinco alternadas).

A conquista fez jus à equipe são-paulina, que estabeleceu o melhor ataque e a melhor defesa do certame, com 70 gols marcados e 23 sofridos, em 22 partidas disputadas, possuindo ainda o artilheiro do torneio: Friaça, com 24 tentos. O time sofreu somente duas derrotas, para o Santos, no primeiro turno, e para o XV de Piracicaba, o “campeão do interior”, lá na terra do “Nhô Quim”. E ainda deixou para a posteridade grandes goleadas, como um 8 a 2 no Juventus, 5 a 0 no Nacional, 5 a 1 no Ypiranga e um 5 a 1 no Palmeiras, até então invicto.


Esse título tricolor foi o derradeiro com a presença do eterno Diamante Negro (e também foi a última temporada em que marcou um gol de bicicleta pelo clube: no 7 a 2, contra o Comercial paulistano). Leônidas da Silva, que jogou no Tricolor entre 1942 e 1950, foi o maior responsável pela revolução que o São Paulo passou, transformando-se em uma das maiores potências do país.

Ao lado de Leônidas, os outros ídolos presentes em todas as cinco conquistas daquela década foram Teixeirinha, Noronha e Remo. 

Em 1950, o São Paulo não conseguiu superar o adversário e a arbitragem para conquistar o tão esperado tricampeonato. Na última rodada, o Tricolor estava um ponto atrás do Palmeiras e enfrentou o mesmo adversário, no dia 28 de janeiro de 1951. A vitória daria o título aos são-paulinos e foi esse resultado que o time procurou desde o início. Teixeirinha abriu o placar logo aos três minutos de jogo. No segundo tempo, o rival empatou aos 15 minutos. 


O lance cabal do jogo, do torneio e do tricampeonato foi quando Teixeirinha marcou o gol que representaria a vitória tricolor, mas que foi anulado pelo bandeirinha Richard Eason e pelo árbitro Alvin Bradley - ambos ingleses. Imagens (como a vista acima, da Revista Tricolor nº 14, de fevereiro de 1951) comprovam que o atacante são-paulino não estava em posição de impedimento, tendo entre ele (encoberto) e o goleiro, na verdade, outros dois adversários.

Boatos dizem que a arbitragem inglesa foi vista, depois, celebrando o carnaval ao lado de belas mulheres em certo clube da capital. Meros boatos. 


BÔNUS: O EXPRESSINHO

Nos anos 40, não foi somente o time principal do Tricolor que sobrou no campo do Pacaembu nos anos 40. Outra equipe são-paulina que dava show - e aplicava até mesmo goleadas muito maiores (como o 14 a 0 sobre o Santos, em 1944) - era a de jogadores aspirantes. 


De 1943 (foto) a 1947, o time considerado reserva do São Paulo ganhou tudo. Pentacampeão consecutivamente do Campeonato Paulista da categoria (também venceu o Campeonato Paulista Amador de 1942). O time que revelaria Yeso, Leopoldo, Antoninho e Savério para o elenco profissional, voava no gramado. Em 101 jogos no período 1943-47, venceram 77 vezes, empataram 18 e perderam apenas seis partidas, marcando 325 gols (média de mais de três gols por peleja) e sofrendo só 96 (menos de um por disputa). 

Por tamanho futebol, este time aspirante ficou conhecido como Expressinho. O nome em si faz referência ao Expresso da Vitória, nome ao qual ficou conhecida a vitoriosa equipe do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro dos anos 40, um dos poucos adversários a altura do Rolo Compressor do Tricolor, no período. 

O apelido, posteriormente, teve a notoriedade resgatada (em verdade, ao longo dos anos sempre foi vez ou outra utilizado). Primeiramente com os fortes times de base criados por Cilinho na época dos Menudos do Morumbi, em meados dos anos 80, e principalmente no início dos anos 90, graças ao trabalho de Telê Santana e Muricy Ramalho, culminado com a conquista da Copa Conmebol de 1994, em que o São Paulo eliminou os times principais de Grêmio e Corinthians, e goleou na final o Peñarol do Uruguai (6 a 0), mesmo tendo atuado com um time de jovens das categorias de base, formado por Rogério Ceni, Juninho, Catê, Denilson e Caio, dentre outros guris.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Entre garrafadas, golaços e o último título do Tricolor no Pacaembu

Texto originalmente publicado no dia 10 de outubro de 2017 no site saopaulofc.net.

De Sordi, Poy, Sarará, Riberto, Victor, Mauro e Serrone (roupeiro); Maurinho, Amaury, Gino Orlando, Zizinho e Canhoteiro: os campeões de 1957

Após os cinco campeonatos estaduais conquistados no Pacaembu entre os anos de 1943 e 1949, o Tricolor foi campeão do Paulistão de 1953, na Vila Belmiro (com um 3 a 1 sobre o Santos), às vésperas do quarto centenário da Cidade de São Paulo, no dia 24 de janeiro de 1954. Os paulistanos passaram o aniversário do município a festejar mais uma glória são-paulina.

O Municipal, contudo, só voltou a ver o São Paulo campeão novamente - e pela última vez - em 1957, já com as obras do Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no Morumbi, a pleno andamento. A história desse certame envolve muita rivalidade, brigas, mas também grandes ídolos e belos gols.  

O Pacaembu em um Choque-Rei, nos anos 40 - A Gazeta Esportiva

O Tricolor, depois da infelicidade ocorrida no estadual do ano anterior, onde o time terminou com o vice-campeonato em jogo extra (havia terminado a fase regular empatado com o Santos na primeira posição, tendo perdido apenas uma partida até ali), viu o Campeonato Paulista de 1957 iniciar-se com outro rival disparando na liderança: o Corinthians.

Tudo bem que, como em 1956, o torneio naquela oportunidade tinha um regulamento alternativo, em que a primeira fase não valia muita coisa (eram 20 clubes e o estágio inicial, de turno único, classificava os 10 primeiros para a competição propriamente dita, de dois turnos). Nesse primeiro momento, o Tricolor não foi bem: perdeu logo na estreia para o Botafogo de Ribeirão Preto e até o fim dessa classificatória acumulou derrotas para o Juventus, XV de Piracicaba e Corinthians.

Justamente esse rival terminou a fase inicial arrebatador, com 13 vitórias em 19 jogos, sem nenhuma derrota. O Tricolor passou na quinta colocação (empatado em pontos com o Jabaquara, mas com uma vitória a menos). O elenco são-paulino, comandado pelo revolucionário técnico húngaro, Béla Guttmann, era bom. Mas havia algo, alguma engrenagem a ser completada...

O técnico Béla Guttmann, ao centro - Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

A peça que faltava foi encontrada na figura de Zizinho, veterano craque do Bangu (à época, considerado o terceiro melhor jogador de futebol do Brasil em todos os tempos, somente atrás de Friedenreich e Leônidas, também tricolores), contratado pelo clube com o primeiro turno da fase final já em disputa.

O novo camisa dez estreou no torneio em 10 de novembro, contra o Palmeiras, e o resultado foi imediato: 4 a 2 para o São Paulo. Nos primeiros cinco jogos com ele em campo, o Tricolor não marcou menos de quatro gols por partida (completam a lista um 7 a 1 no XV de Novembro, um 6 a 2 no Santos, um 6 a 2 na Ponte Preta e um 5 a 3 novamente no time de Piracicaba).

Em verdade, com o Mestre Ziza, o São Paulo não voltou a perder no campeonato (foram 10 vitórias e dois empates, até o final). O ataque, formado por Maurinho, Amaury, Gino Orlando, Zizinho e Canhoteiro tornou-se opressor e, aliado ao já forte sistema defensivo de Poy, De Sordi, Mauro e Dino Sani (todos selecionáveis), tornou o Tricolor sério candidato ao título.

O craque Zizinho, que chegou em boa hora - Arquivo Histórico

O problema é que o Corinthians ainda estava disparado na ponta da tabela, e invicto. Para acirrar ainda mais a rivalidade entre as duas equipes, no jogo do primeiro turno da fase final (antes da chegada de Zizinho), terminado empatado em 1 a 1, Alfredo Ramos, ex são-paulino, acabou fraturando a perna em uma dividida com Maurinho. O fim daquele jogo foi de nervos a flor da pele, principalmente para o atacante Gino Orlando e para o corintiano Luisinho, que se estranhavam a todo momento.

No dia seguinte, Gino e outros tricolores foram visitar o antigo companheiro de clube, que estava internado no hospital. Após o encontro, Luisinho, que também fora visitar o colega, mas que resolvera se esconder atrás de uma árvore após ver os são-paulinos, atirou um tijolo à cabeça do centroavante do Tricolor, e fugiu!

Maurinho, Gino Orlando e Zizinho, um trio espetacular - Arquivo Histórico

Como seria o encontro deles, em um Pacaembu lotado, na última rodada do Campeonato? Agravado pelo fato de que, nesta "final", dia 29 de dezembro, o Tricolor já havia conseguido igualar a situação de pontos na tabela. Uma semana antes, na Vila Belmiro, o Santos venceu o Corinthians e pôs fim a uma série de 35 jogos sem perder do time de Parque São Jorge, enquanto o São Paulo bateu o Palmeiras, por 1 a 0.

Quem vencesse seria o campeão; se empatassem, os dois times se juntariam ao Santos (que brevemente ficou na dianteira da pontuação, por um ponto, ao vencer a última partida dele um dia antes) e disputariam um triangular decisivo, então denominado "supercampeonato".

Cena rara: sorteio de árbitro minutos antes do jogo / Arquivo Histórico

Por haver toda uma carga extra de polêmica e rivalidade posta em campo na partida decisiva, a Federação Paulista ousou e resolveu investir na melhor arbitragem que poderia adquirir. Pagou a quantia mais alta da história do futebol sul-americano até então pelo trio Malcher, Cross e Lynch - estes últimos, britânicos, que apitavam na Argentina. O juiz da partida somente seria escolhido momentos antes de começar a peleja, através de sorteio (os outros dois, tornar-se-iam bandeirinhas do jogo).

No aspecto técnico, o Tricolor talvez estivesse um pouco atrás do oponente na hora H, pois o importantíssimo Dino Sani se contundira e, para piorar, o suplente dele, Ademar, também havia se machucado. Só restava Sarará, que não jogara uma partida sequer no certame até então, para substituí-lo. Detalhe: Sarará estava afastado do elenco por desentendimentos com Béla Guttmann e teve que ser reincorporado nos últimos momentos...

Foguetório na entrada dos tricolores ao campo / Arquivo Histórico

Com a bola rolando, não deu nem cinco minutos de jogo e o primeiro "arranca-rabo" veio para por à prova o trio de arbitragem do jogo: Gino e Luisinho deixaram os seus recados um na perna do outro, em uma dividida.

Toda forma, talvez por haver menos pressão sobre os são-paulinos, levemente azarões, o Tricolor logo tomou conta do jogo e, assim, aos 17 minutos, forçou a queda do primeiro zero do placar: 1 a 0 com Amaury, que recebeu passe de Gino, avançou pela ponta esquerda e bateu sem chances para o goleiro adversário, encobrindo-o. Uma maestria!

O gol de cobertura de Amaury - Folha da Manhã

Desnorteado, o Corinthians tentou ir ao ataque com tudo e por fim a desvantagem. Aberto, foi pego no contra-ataque um minuto depois do primeiro tento são-paulino. Amaury lançou Canhoteiro, que sozinho na ponta esquerda se desvencilhou do marcador, deixando-o sentado no chão, e chutou no canto direito do arqueiro corintiano, que pensava vir dali um cruzamento: 2 a 0!



O golaço de Canhoteiro / Acervo da família

Contudo, a pressão do rival se manteve e, aos 21 minutos, rompeu o cerco tricolor: 2 a 1. O cenário do jogo não se alterou até o final da primeira etapa, com a defesa são-paulina se sustentando firmemente. O segundo tempo foi na mesma toada, sem que, entretanto, aqueles em desvantagem tivesse qualquer chance real de ameaçar o São Paulo, que se defendia, ora com classe, ora como podia, por vezes dando balões para o alto mesmo, pois era jogo de campeonato.

Em um desses bicos pra cima, aos 34 minutos, Zizinho recebeu e dominou a pelota caída dos céus, passou para Gino, que de primeira repassou para Maurinho, mais ao fundo. Muitos ali, depois, reclamaram impedimento, mas o bandeirinha Lynch nada marcou (e toda a imprensa assim aprovou) e a jogada seguiu. O ponta-direita são-paulino ganhou na corrida de Olavo e chegou cara à cara com o goleiro Gilmar.

Maurinho parou e visou o guarda-meta rival. Diz a lenda que, naquele momento, o atacante do Tricolor indagou ao oponente em que canto gostaria que chutasse a bola. Isso mesmo: "Em que canto você quer?".

Sem chance alguma para defesa. Gol do São Paulo! O terceiro do jogo, o que liquidava a partida. Na comemoração, Maurinho deu um tapinha no queixo de Gilmar, apontou e proferiu "Pega lá". Foi a deixa para a maior confusão já vista no Pacaembu até os tristes eventos ocorridos na Supercopa São Paulo de Juniores, de 1995.

Socorro a um ferido por garrafa e prisão de meliante que invadiu o campo - A Gazeta Esportiva

Os corintianos paralisaram a partida por cinco ou seis minutos, reclamando da decisão do árbitro. O zagueiro Olavo chegou a agredir fisicamente o bandeirinha Lynch, mas nem expulso foi. Depois do ataque, os torcedores do Parque São Jorge começaram a atirar paus, pedras e principalmente garrafas em direção ao assistente britânico - sério, uma chuva de garrafas -, o que forçou o árbitro Malcher a solicitar a troca dos auxiliares para que a partida tivesse reinício.

Houve, ainda, necessidade de intervenção policial para acalmar os ânimos dos torcedores invadiram o campo e que digladiavam entre si nas gerais do Pacaembu.

A torcida corintiana não soube se comportar, enquanto a são-paulina só fez festa

Sem muito tempo para que acontecesse algo mais durante o jogo, logo o São Paulo sagrou-se Campeão Paulista de 1957. Quanto ao Corinthians, que até duas rodadas antes estava invicto, não restou nem o vice-campeonato, obtido pelo Santos. O técnico Brandão foi demitido e o maior artilheiro da história dos rivais, Cláudio, se aposentou. Trindade, presidente do time terceiro colocado, também não se reelegeu. Uma pequena crise plantada pelo Tricolor...

Quanto ao craque Maurinho, quando questionado pelos repórteres (lembrando que houve transmissão também pela televisão) sobre o lance capital da partida, o atacante afirmou que o goleiro Gilmar dizia para o companheiro Oreco o seguinte: "Oreco, dentro da área não, pois seria pênalti, mas fora da área pode dar pra quebrar as duas pernas deles, que cobrança de falta eu garanto".

A resposta que o ponta-direita do Tricolor encontrou para essas palavras foi a bola do título dentro das redes adversárias.

Justa vitória. E, ah! O Palmeiras ficou em penúltimo - Folha da Manhã

29.12.1957. Campeonato Paulista
São Paulo (SP). Estádio Municipal de São Paulo - Pacaembu
SÃO PAULO Futebol Clube 3 X 1 Sport Club Corinthians Paulista

SPFC: José Poy; De Sordi e Mauro; Sarará, Victor e Riberto; Maurinho, Amaury, Gino Orlando, Zizinho e Canhoteiro. Técnico: Béla Guttman.
Gols: Amaury, 17'/2; Canhoteiro, 19'/2; Maurinho, 34'/2.

SCCP: Gilmar; Olavo e Oreco; Idário, Valmir e Benedito; Cláudio, Luizinho, Índio, Rafael e Zague.
Gol: Rafael, 21'/2.

Árbitro: Alberto da Gama Malcher
Renda: Cr$ 2.409.040,00
Público: 39.670 pagantes



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