As matérias eram apresentadas ano por ano e justapostas à uma história lateral que contava passo à passo o desenvolver da vida e da carreira do obstinado jogador marcado pelo destino - e olha que ainda não era o capitão que ergueu a taça de campeão do mundo em 2002.
Transcreverei abaixo alguns anos, os mais marcantes em minha opinião:
1985
Cafu estava na marca do pênalti. Tinha atingido 15 anos, a idade em que a maioria dos garotos pobres começa a trabalhar para ajudar no orçamento da casa. Os irmãos mais velhos já davam duro. Marcelo era envernizador de móveis e Maurício trabalhava de entregador da Pão Pullman. Os amigos diziam que ele deveria tentar um emprego de office-boy. Não foi o que Cafu fez. Pôs as chuteiras debaixo do braço e decidiu tentar a sorte num grande clube. Fez nove peneiras e acabou dispensado das nove.
Começou no time do coração, o São Paulo. Levou um cartão de recomendação de Pedro Rocha e jogou quinze minutos pela ponta-direita. O treinador Firmo de Mello, responsável pelo quadro infantil, olhou, olhou e sentenciou: "Você é bom, mas aqui só tem jogador de seleção". Cafu insistiu uma segunda vez, agora escoltado pessoalmente por Rocha. Treinou 20 minutos e, de novo, viu o dedo do treinador balançar feito limpador de pára-brisa. "Fiquei mordido", conta ele. "Voltei mais uma vez". Firmo encarou o garoto: "Não te conheço de algum lugar"? Conhecia. O ano terminou com cafu cada vez mais longe dos gramados.
1986
Cafu estava parecendo farinha. Passava pelas peneiras e não parava em nenhuma. Cara de pau, ele chegou a insistir uma vez mais com o São Paulo. "Você de novo!", recepcionou o velho conhecido Firmo de Mello, agora treinador do juvenil. "Oi e tchau". Já que não o queriam no São Paulo, o jeito era tentar outro time. Com um cartão de recomendação de Ivair, o Príncipe, estrela da Portuguesa nos anos 60 e professor da escolinha Crack. Cafu rumou numa segunda-feira para a peneira do Canindé. Só que passou a tarde toda esperando a oportunidade no alambrado. Voltou terça, quarta, quinta e sexta. Mandaram tentar na semana seguinte. Não é que ele voltou mesmo! Depois de um rápido bate-bola, adivinhe, ele acabou dispensado.
A história se repetiu no Palmeiras, Corinthians e Atlético Mineiro. Cafu já pensava em desistir quando recebeu um recado de Wanderley, ex-professor da Crack [onde ele jogava]. O amigo estava treinando o Nacional, um time da divisão intermediária da capital paulista, e tinha arrumado uma vaga para ele no juvenil. Cafu nem precisou fazer teste. Virou titular de cara.
1987
O azar perseguia Cafu naquela época. Adivinhe quem era seria o seu treinador no Nacional? Pichu, o mesmo homem que o havia barrado na peneira da Portuguesa. "Ele me olhava, olhava e não reconhecia", lembra Cafu. No começo, até deu para virar titular. Mas só no começo. Era o efeito Pichu de novo. "Cafu tinha um potencial excelente", elogia hoje o treinador. "Mas ele não repetia nas partidas 1% do que fazia nos treinos". Este foi o argumento usado para tirar o jogador do time - e do clube. Passados os anos e diante do atual sucesso do ex-dispensado, Pichu apresenta uma justificativa curiosa. "Ao mandá-lo embora, mexi com seus brios. Por isso ele cresceu muito", explica.
Na época restou a Cafu vestir a camisa do Guarani do Jardim Irene. Logo sua fama se espalhou pela zona sul de São Paulo. "Falaram de um garoto magrinho que jogava um bolão. Fui assistir a três jogos e vi que Cafu era um talento", conta João Alemão, técnico que reivindica a descoberta do craque. Alemão não perdeu tempo e levou a jovem promessa para o seu time, o Itaquaquecetuba, da terceira divisão do futebol paulista. Como lá existiam outros dois Marcos (o verdadeiro nome de Cafu, lembra?), era preciso rebatizar aquele rapaz. Primeiro, virou Cafuringa, por ser tão rápido quanto o ponta do Fluminense, das décadas de 60 e 70. Cafuringa virou Cafu e, em pouco tempo, o azar começou a largar o pé do menino.
1988 e 1989
(páginas perdidas - se alguém puder ajudar, contribuindo para preencher essa lacuna, serei muitíssimo grato)
1990
De lateral improvisado, Cafu logo passou a titular absoluto na posição. Só saía de lá para justificar a fama de jogador com mil e uma utilidades. Atuou na defesa, meio-campo e ataque, tornando-se um dos craques mais versáteis do futebol brasileiro e entrando para a história do São Paulo. Em seis anos com a camisa tricolor, Cafu conquistou um título brasileiro (1991), dois paulistas (1991/92), duas Libertadores (1992/93), duas Recopas Sul-Americanas (1992/93 sic: 93/94) e uma Supercopa (1993), sem falar em duas Bolas de Prata como o melhor lateral-direito em 1992 e 1993. Não é à toa que acabou escalado numa enquete promovita por PLACAR para o melhor time do São Paulo em todos os tempos, ao lado de craques como Gérson, Leônidas da Silva, Pedro Rocha e Canhoteiro.
Cafu estava na marca do pênalti. Tinha atingido 15 anos, a idade em que a maioria dos garotos pobres começa a trabalhar para ajudar no orçamento da casa. Os irmãos mais velhos já davam duro. Marcelo era envernizador de móveis e Maurício trabalhava de entregador da Pão Pullman. Os amigos diziam que ele deveria tentar um emprego de office-boy. Não foi o que Cafu fez. Pôs as chuteiras debaixo do braço e decidiu tentar a sorte num grande clube. Fez nove peneiras e acabou dispensado das nove.
Começou no time do coração, o São Paulo. Levou um cartão de recomendação de Pedro Rocha e jogou quinze minutos pela ponta-direita. O treinador Firmo de Mello, responsável pelo quadro infantil, olhou, olhou e sentenciou: "Você é bom, mas aqui só tem jogador de seleção". Cafu insistiu uma segunda vez, agora escoltado pessoalmente por Rocha. Treinou 20 minutos e, de novo, viu o dedo do treinador balançar feito limpador de pára-brisa. "Fiquei mordido", conta ele. "Voltei mais uma vez". Firmo encarou o garoto: "Não te conheço de algum lugar"? Conhecia. O ano terminou com cafu cada vez mais longe dos gramados.
1986
Cafu estava parecendo farinha. Passava pelas peneiras e não parava em nenhuma. Cara de pau, ele chegou a insistir uma vez mais com o São Paulo. "Você de novo!", recepcionou o velho conhecido Firmo de Mello, agora treinador do juvenil. "Oi e tchau". Já que não o queriam no São Paulo, o jeito era tentar outro time. Com um cartão de recomendação de Ivair, o Príncipe, estrela da Portuguesa nos anos 60 e professor da escolinha Crack. Cafu rumou numa segunda-feira para a peneira do Canindé. Só que passou a tarde toda esperando a oportunidade no alambrado. Voltou terça, quarta, quinta e sexta. Mandaram tentar na semana seguinte. Não é que ele voltou mesmo! Depois de um rápido bate-bola, adivinhe, ele acabou dispensado.
A história se repetiu no Palmeiras, Corinthians e Atlético Mineiro. Cafu já pensava em desistir quando recebeu um recado de Wanderley, ex-professor da Crack [onde ele jogava]. O amigo estava treinando o Nacional, um time da divisão intermediária da capital paulista, e tinha arrumado uma vaga para ele no juvenil. Cafu nem precisou fazer teste. Virou titular de cara.
1987
O azar perseguia Cafu naquela época. Adivinhe quem era seria o seu treinador no Nacional? Pichu, o mesmo homem que o havia barrado na peneira da Portuguesa. "Ele me olhava, olhava e não reconhecia", lembra Cafu. No começo, até deu para virar titular. Mas só no começo. Era o efeito Pichu de novo. "Cafu tinha um potencial excelente", elogia hoje o treinador. "Mas ele não repetia nas partidas 1% do que fazia nos treinos". Este foi o argumento usado para tirar o jogador do time - e do clube. Passados os anos e diante do atual sucesso do ex-dispensado, Pichu apresenta uma justificativa curiosa. "Ao mandá-lo embora, mexi com seus brios. Por isso ele cresceu muito", explica.
Na época restou a Cafu vestir a camisa do Guarani do Jardim Irene. Logo sua fama se espalhou pela zona sul de São Paulo. "Falaram de um garoto magrinho que jogava um bolão. Fui assistir a três jogos e vi que Cafu era um talento", conta João Alemão, técnico que reivindica a descoberta do craque. Alemão não perdeu tempo e levou a jovem promessa para o seu time, o Itaquaquecetuba, da terceira divisão do futebol paulista. Como lá existiam outros dois Marcos (o verdadeiro nome de Cafu, lembra?), era preciso rebatizar aquele rapaz. Primeiro, virou Cafuringa, por ser tão rápido quanto o ponta do Fluminense, das décadas de 60 e 70. Cafuringa virou Cafu e, em pouco tempo, o azar começou a largar o pé do menino.
1988 e 1989
(páginas perdidas - se alguém puder ajudar, contribuindo para preencher essa lacuna, serei muitíssimo grato)
1990
De lateral improvisado, Cafu logo passou a titular absoluto na posição. Só saía de lá para justificar a fama de jogador com mil e uma utilidades. Atuou na defesa, meio-campo e ataque, tornando-se um dos craques mais versáteis do futebol brasileiro e entrando para a história do São Paulo. Em seis anos com a camisa tricolor, Cafu conquistou um título brasileiro (1991), dois paulistas (1991/92), duas Libertadores (1992/93), duas Recopas Sul-Americanas (1992/93 sic: 93/94) e uma Supercopa (1993), sem falar em duas Bolas de Prata como o melhor lateral-direito em 1992 e 1993. Não é à toa que acabou escalado numa enquete promovita por PLACAR para o melhor time do São Paulo em todos os tempos, ao lado de craques como Gérson, Leônidas da Silva, Pedro Rocha e Canhoteiro.









