SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE

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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Cafu e as peneiras

A Revista PLACAR em 1995 comemorava 25 anos de existência. Lançou então uma revista especial contando as principais notícias por ela reportadas durante todo esse período. Mais que isso, fez também uma homenagem a Cafu, nascido no mesmo ano em que a revista estreou.

As matérias eram apresentadas ano por ano e justapostas à uma história lateral que contava passo à passo o desenvolver da vida e da carreira do obstinado jogador marcado pelo destino - e olha que ainda não era o capitão que ergueu a taça de campeão do mundo em 2002.

Transcreverei abaixo alguns anos, os mais marcantes em minha opinião:

1985

Cafu estava na marca do pênalti. Tinha atingido 15 anos, a idade em que a maioria dos garotos pobres começa a trabalhar para ajudar no orçamento da casa. Os irmãos mais velhos já davam duro. Marcelo era envernizador de móveis e Maurício trabalhava de entregador da Pão Pullman. Os amigos diziam que ele deveria tentar um emprego de office-boy. Não foi o que Cafu fez. Pôs as chuteiras debaixo do braço e decidiu tentar a sorte num grande clube. Fez nove peneiras e acabou dispensado das nove.

Começou no time do coração, o São Paulo. Levou um cartão de recomendação de Pedro Rocha e jogou quinze minutos pela ponta-direita. O treinador Firmo de Mello, responsável pelo quadro infantil, olhou, olhou e sentenciou: "Você é bom, mas aqui só tem jogador de seleção". Cafu insistiu uma segunda vez, agora escoltado pessoalmente por Rocha. Treinou 20 minutos e, de novo, viu o dedo do treinador balançar feito limpador de pára-brisa. "Fiquei mordido", conta ele. "Voltei mais uma vez". Firmo encarou o garoto: "Não te conheço de algum lugar"? Conhecia. O ano terminou com cafu cada vez mais longe dos gramados.

1986

Cafu estava parecendo farinha. Passava pelas peneiras e não parava em nenhuma. Cara de pau, ele chegou a insistir uma vez mais com o São Paulo. "Você de novo!", recepcionou o velho conhecido Firmo de Mello, agora treinador do juvenil. "Oi e tchau". Já que não o queriam no São Paulo, o jeito era tentar outro time. Com um cartão de recomendação de Ivair, o Príncipe, estrela da Portuguesa nos anos 60 e professor da escolinha Crack. Cafu rumou numa segunda-feira para a peneira do Canindé. Só que passou a tarde toda esperando a oportunidade no alambrado. Voltou terça, quarta, quinta e sexta. Mandaram tentar na semana seguinte. Não é que ele voltou mesmo! Depois de um rápido bate-bola, adivinhe, ele acabou dispensado.

A história se repetiu no Palmeiras, Corinthians e Atlético Mineiro. Cafu já pensava em desistir quando recebeu um recado de Wanderley, ex-professor da Crack [onde ele jogava]. O amigo estava treinando o Nacional, um time da divisão intermediária da capital paulista, e tinha arrumado uma vaga para ele no juvenil. Cafu nem precisou fazer teste. Virou titular de cara.

1987

O azar perseguia Cafu naquela época. Adivinhe quem era seria o seu treinador no Nacional? Pichu, o mesmo homem que o havia barrado na peneira da Portuguesa. "Ele me olhava, olhava e não reconhecia", lembra Cafu. No começo, até deu para virar titular. Mas só no começo. Era o efeito Pichu de novo. "Cafu tinha um potencial excelente", elogia hoje o treinador. "Mas ele não repetia nas partidas 1% do que fazia nos treinos". Este foi o argumento usado para tirar o jogador do time - e do clube. Passados os anos e diante do atual sucesso do ex-dispensado, Pichu apresenta uma justificativa curiosa. "Ao mandá-lo embora, mexi com seus brios. Por isso ele cresceu muito", explica.

Na época restou a Cafu vestir a camisa do Guarani do Jardim Irene. Logo sua fama se espalhou pela zona sul de São Paulo. "Falaram de um garoto magrinho que jogava um bolão. Fui assistir a três jogos e vi que Cafu era um talento", conta João Alemão, técnico que reivindica a descoberta do craque. Alemão não perdeu tempo e levou a jovem promessa para o seu time, o Itaquaquecetuba, da terceira divisão do futebol paulista. Como lá existiam outros dois Marcos (o verdadeiro nome de Cafu, lembra?), era preciso rebatizar aquele rapaz. Primeiro, virou Cafuringa, por ser tão rápido quanto o ponta do Fluminense, das décadas de 60 e 70. Cafuringa virou Cafu e, em pouco tempo, o azar começou a largar o pé do menino.

1988 e 1989

(páginas perdidas - se alguém puder ajudar, contribuindo para preencher essa lacuna, serei muitíssimo grato)

1990

De lateral improvisado, Cafu logo passou a titular absoluto na posição. Só saía de lá para justificar a fama de jogador com mil e uma utilidades. Atuou na defesa, meio-campo e ataque, tornando-se um dos craques mais versáteis do futebol brasileiro e entrando para a história do São Paulo. Em seis anos com a camisa tricolor, Cafu conquistou um título brasileiro (1991), dois paulistas (1991/92), duas Libertadores (1992/93), duas Recopas Sul-Americanas (1992/93 sic: 93/94) e uma Supercopa (1993), sem falar em duas Bolas de Prata como o melhor lateral-direito em 1992 e 1993. Não é à toa que acabou escalado numa enquete promovita por PLACAR para o melhor time do São Paulo em todos os tempos, ao lado de craques como Gérson, Leônidas da Silva, Pedro Rocha e Canhoteiro.


Grandes Taças